Artigos
Essa seção traz textos sobre assuntos diversos e aleatórios. Bons discos, artistas relevantes, desconhecidos da maioria ou nem tanto, e qualquer coisa que mereça uma divagação. .
The Shaggs - Philosophy Of The World (1969)

"When I get to the bottom I go back to the top (quando eu chego no fundo eu retorno ao topo)". Essa frase de Helter Skelter, dos Beatles, é perfeita para se começar a pensar e entender o The Shaggs. Imagine um experimento bizarro onde se mantivesse três garotas em cativeiro até os vinte e poucos anos, sem influência cultural externa. E que depois essas garotas ganhassem duas guitarras e uma bateria e gravassem um disco. Resultado: algo próximo ao som do The Shaggs.
Formado por três irmãs (Dorothy - guitarra e voz, Betty - guitarra e Helen - bateria) da pacata, solitária e depressiva Freemont, em New Hampshire, o "experimento" The Shaggs foi idéia do pai das meninas, Austin Wiggin Jr., que, indo atrás de uma previsão de sua mãe (que entre outras coisas, dizia que as netas iam formar uma banda de sucesso), comprou os instrumentos, pagou algumas aulas de música e a prensagem de 1.000 cópias do primeiro disco, Philosophy of The World.
Como explicar a música do The Shaggs? Caos e inépcia que acabam resultando numa inesperada mistura de doçura e complexidade. Uma inocência desgarrada de toda a pretensão estilística, e que produz um tipo de música ao mesmo tempo bela e perturbadora. Dorothy e sua guitarra trabalham quase sempre em uníssono, gerando melodias complexas e ritmicamente quebradas, de uma nota por sílaba, como uma música tradicional de lugar nenhum, como uma gravação ao contrário. Helen e Betty, providenciam um contraponto infernal, como se estivessem ali por motivos diferentes, com raros momentos de convergência. As letras também apresentam esse dualismo: são de um bucolismo infantil que nos deixa a mesma dúvida. Seriam produto de adolescentes sem ter o que dizer ou trata-se de uma poesia mais elevada, carregada de entrelinhas? Letras que falam sobre o gato perdido de Dorothy (“My Pal Foot Foot”), que exaltam os pais (“Who Are Parents?”), justo no momento do grande choque de gerações dos anos 60. Hoje soa mais subversivo do que Iggy Pop em "I Wanna Be Your Dog".
Dizem que durante a gravação de Philosophy of the World, as garotas paravam de tocar em alguns momentos, dizendo que uma ou outra tinha errado alguma parte. Então os engenheiros se entreolhavam, curiosos para entender como elas poderiam saber que alguma parte daquele caos estava "errada". Havia alguma espécie de lei, organização e método de composição do The Shaggs? Aquela digressão, aquela fluência (?) discursiva poderia ser reproduzida fielmente a qualquer momento ao vivo? Difícil responder.
Em 1975, Austin Wiggin arranja mais uma sessão de gravação para as meninas. Esse material só vem a ser lançado mais tarde, em 1982, no disco Shaggs’Own Thing. Os fãs que já cultuavam o The Shaggs (então reconhecida com a fama de "pior banda de rock da história") e o disco Philosophy of the World, ficaram um tanto desapontados com a convencionalidade desse segundo registro, embora, para os padrões radiofônicos de hoje em dia, ele não seja nada convencional. Alguns fãs notórios do The Shaggs foram Frank Zappa e Lester Bangs, que ajudaram a difundir o evangelho das três irmãs, aumentado ainda mais sua aura cult.
Julgando pela sua originalidade e honestidade, The Shaggs pode ser uma experiência reveladora para quem escuta música com a cabeça aberta, sempre procurando por experiências novas e impactantes. The Shaggs é bom, sim.
Trecho da letra de "Philosophy Of The World":
"It doesn't matter what you do It doesn't matter what you say There will always be one who wants things the opposite way We do our best, we try to please But we're like the rest we're never at ease You can never please Anybody In this world" tradução: "Não importa o que você faça Não importa o que você diga Haverá sempre alguém que deseja o contrário Mas fizemos nosso melhor, tentamos agradar Mas somos como todo mundo, e nunca é fácil Você nunca vai agradar Ninguém Nesse mundo"

As irmãs "Shaggs", em 1972. Helen, Dorothy, Betty e Rachel. Coisa fina
Guilherme Barros (Maio/07)
Richard Thompson - Rumor and Sigh
O compositor e guitarrista britânico Richard Thompson é o que podemos chamar de veterano. Com uma longa carreira e vasta discografia nas costas, fez sua primeira gravação em 1967, ao lado da banda de folk-rock Fairport Convention. Seu estilo inconfundível é percebido com apenas algumas notas cristalinas de sua Strato, ou do seu desempenho musculoso ao violão. É rock sem o filtro do blues, bebendo na fonte de canções tradicionais inglesas, nas gaitas-de-fole escocesas.
Amado por um público seleto e fiel, Thompson nunca foi um fenômeno de massa, e até seu álbuns mais conhecidos atingiram apenas um relativo e limitado sucesso comercial. Em uma entrevista a Guitar Player, Thompson afirma que o fato de nunca ter feito um grande sucesso trazia a benção de sempre estar se renovando e produzindo boa música. E isso realmente procede. Poucos artistas que atingem a maturidade continuam apresentando o frescor, a dinâmica e a qualidade da música de Thompson.
É de 1991, essa obra-prima chamada Rumor and Sigh. Thompson está afiado como nunca, na composição, guitarra, violão, nas concepções de arranjo e temática das letras. Nunca é banal na escolha de um tema para a canção. O rock "Read About Love" que abre o CD fala de um jovem na descoberta do sexo através de revistas como Hustler, já que seus pais não lhe davam maiores informações. Em "Grey Walls", leva sua amada para um hospício, por não ser mais possível conviver com sua doença mental, e pede para Deus ter pena dela no refrão. A canção de amor de arranjo minimalista "Why Must I Plead" arrepia, e apresenta um solo soberbo de guitarra, onde timbre, economia e touch fazem um momento memorável. "1952 Vincent Black Lightning" evoca cancionismo folk a la Dylan, com um violão magnífico e uma história que narra amor, crime e morte ao redor da motocicleta que dá o título à música. "Backlash Love Affair" é o encontro carnal de um narrador com uma garota fria, coberta de tatuagens e fã de Heavy Metal.
Um ótimo álbum de um excelente artista, cuja obra completa merece cuidadoso escrutínio por sua grande variedade e qualidade. E Rumor and Sigh é uma boa maneira de começar.
Guilherme Barros (Abril/07)
Elliott Smith - Either/Or
A morte de Elliott Smith pouco após completar seus 34 anos, em 2003, ainda continua um mistério. Dois golpes de faca no peito, aparentemente auto-inflingidos, sugeriram suícidio, tema recorrente em suas músicas e em conversas com amigos mais próximos. A suspeita de homicídio nunca foi descartada, pois sua namorada Jennifer Chiba estava com Smith na hora de sua morte, e o relacionamento dos dois era comparado ao de Sid e Nancy, com brigas e discussões recorrentes e consumo expressivo de drogas.
A luta contra a dependência em álcool e drogas teve pouca trégua na carreira de Elliott. Embora sempre insistisse em dizer que estava limpo, alguns de seus concertos o contradiziam. Ao final de sua vida, suas aparições em público eram classificadas por críticos como "uma das piores performances realizadas por um músico", e como um "pesadelo doloroso". Em algumas ocasiões Smith esquecia completamente as letras de canções consagradas, que tinham que ser "sopradas" pela platéia, o que também acontecia com os acordes de violão.
Smith começou sua carreira na banda Heatmiser, que fazia uma espécie de grunge-rock, e lançou dois álbuns e um EP independentes e um álbum pela major Virgin Records, chamado Mic City Sons. Esse álbum vale a pena ser escutado, para quem quer ouvir Smith num ambiente mais guitar-band e agressivo.
O Heatmiser se dissolveu em 95, e Smith iniciou suas gravações solo, predominantemente acústicas, com sua característica voz suave e melódica, gravadas artesanalmente num gravador K7 de 4 canais. Por incentivo de sua namorada na época, ele manda essa demo para o diretor do selo Cavity Search Records, que imediatamente agenda o lançamento de seu primeiro trabalho, Roman Candle. Todas as características da obra de Elliott já estão ali, a sublime sensibilidade pop, a atmosfera esparsa preenchida pelo violão, com inserções de riffs na guitarra elétrica e baterias econômicas, geralmente tocadas com baquetas-vassourinha. Bem como a temática sombria das letras: depressão, dependência química e relacionamentos tortuosos e falidos.
Após gravar o disco que leva o seu nome, em 1995, Smith lança em 97 Either/Or, que recebe ótimas críticas. Todos os instrumentos são tocados por Smith, as composições estão ainda mais maduras e os arranjos mais densos, com belas harmonizações de voz. Either/Or é uma verdadeira gema pop. A balada "Say Yes", pode figurar em listas das canções mais belas já compostas, entre "God Only Knows" dos Beach Boys, um punhado dos Beatles e etc e tal. Ná ótima "Ballad of Big Nothing", ele expressa o sentimento de descaso, cantando: "você pode fazer o que quiser, a hora que você quiser, você pode fazer o quiser, ninguém vai lhe impedir, isso não significaria nada." A assustadoramente bela "Between The Bars" fala da solidão a dois, enquanto entornam uma birita. De tirar lágrimas. Essa canção recebeu uma bela roupagem jazz no disco Careless Love, de Madeleine Peyroux.
Nesse mesmo ano de 97, Smith foi convidado pelo diretor Gus Van Sant a compor alguma música original para o filme Gênio Indomável. Compôs "Miss Misery", que entrou para a trilha do filme, ao lado de "no Name #3" (de Roman Candle) e "Angeles" e "Say Yes" e uma versão orquestrada de "Between the Bars" (todas de Either/Or). A canção "Miss Misery" acabou sendo indicada para o Oscar 1998, de melhor canção original. Devido ao nervosismo e a fragilidade da personalidade de Smith, ele teve que ser convencido e a pisar no palco na cerimônia do Oscar. A interpretação de "Miss Misery" ficaria a cargo de Richard Marx, caso ele não a assumisse. A estatueta acabou ficando com Celine Dion, com o tema "My Heart Will Go On", de Titanic. Smith comenta em uma entrevista que foi muito bem tratado pela cantora, e recebeu um abraço e desejo de boa sorte de Dion. Foi a única exposição de sua obra para um público mais amplo.
Elliot Smith é a perfeição pop em estado bruto. Sem firulas, gelo seco e produção mainstream. Apenas o que se precisa.
Guilherme Barros (Abril/07)
Livros
Hybrid Picking for Guitar - Gustavo Assis Brasil
A técnica de hybrid picking (palheta e dedos) é uma excelente opção para guitarristas que procuram ampliar suas possibilidades harmônicas e polifônicas. Idéias musicais só possíveis com fingerstyle (apenas dedos), podem ser ser executadas com a hybrid picking, sem perder os benefícios que a palheta traz. No que diz respeito à técnica guitarrística, é o "melhor dos dois mundos".
Bastante difundida entre os guitarristas de country, a hybrid picking vem sendo usada cada vez mais por músicos de diversos estilos, pelo leque de possibilidades que traz e um mundo totalmente novo a explorar. Pela primeira vez, está disponível um livro que se dedica exclusivamente desse assunto, de forma sistemática, organizada e didática. Foi Gustavo Assis Brasil que teve essa idéia pioneira, e apresenta à comunidade guitarrística o seu Hybrid Picking for Guitar.
O livro disseca minuciosamente a técnica, com exercícios progressivos que dão conta de toda sua gama de possibilidades, incluindo até o uso do dedo mínimo, um dedo sonegado por 99% dos guitarristas. Após uma introdução puramente técnica e mecânica, o livro traz exemplos musicais, frases e belas composições incorporando Hybrid Picking. Todos os exemplos foram gravados por Gustavo no CD que acompanha o livro. Para mais informações visitem o site www.gustavoassisbrasil.com
Altamente recomendado.
Guilherme Barros (Abril/07)